ARQ5102 – Introdução prática à Ciberarqueologia: Modelagem 3D e Interatividade em tempo real

Aula 8 (Teoria) – “Altered Carbon” e o Pós-Humanismo

Vimos até agora que a Cibernética lida com o controle sobre a informação. Ela tem sido assim antes mesmo de receber esse nome. As artilharias antiaéreas da Segunda Guerra Mundial já lidavam com o processamento de informações inseridas pelos soldados a fim de gerar uma saída de dados correta que “dissesse” em que lugar do céu o avião inimigo estaria dentro de um determinado período. Norbert Wiener, na década de 1940, formalizou os estudos sobre informação em uma nova área de pesquisa, a cibernética. Nas décadas seguintes, a informação foi controlada por robôs e também serviu para criar dispositivos artificiais que controlassem a informação dos corpos humanos (criando os ciborgues). O controle da informação também se fez presente quando começamos a criar ambientes virtuais e trabalharmos neles. A Realidade Virtual nada mais é do que o controle de informações em um espaço que não é “real”.

Mas, afinal, o que é informação?

 

De acordo com a raiz latina, informação vem do nominativo informatio que, por sua vez, deriva do verbo informare, significando “dar forma à mente”.

Pessoalmente, gosto bastante dessa definição etimológica, pois ela nos permite uma grande abertura do leque de possibilidades de uso. Sendo a informação algo que dá forma ao que temos em mente, todas as nossas vidas estão baseadas nela: nós enxergamos com os olhos, mas as imagens são formadas no cérebro para que possamos interpretá-las; uma poesia é a concretização de nossos sentimentos mais profundos; um desenho feito no papel ou em uma parede de caverna é um modo de dar forma às imagens que temos em mente; um algoritmo desenvolvido num computador é a sequência de processos que previamente pensamos; e por aí vai.

Contudo, quando pensamos em informação, quase sempre nos vem à mente códigos escritos, sejam em forma de letras, sejam como números. Nem sempre damos valor à informação oral, pois ela tende a se dissipar mais rapidamente com o passar do tempo (embora seja incontestável a importância da figura do aedo grego – pessoa responsável por narrar oralmente as histórias de seu povo – por exemplo). E também não devemos nos esquecer que somos bombardeados diariamente com dezenas de milhares de informações invisíveis, tais como ondas de rádio e TV, além de internet Wi-Fi e sistemas de telefonia móvel. Se tivéssemos uma visão capaz de enxergar todas informações que nos perpassam a cada instante, certamente veríamos um mundo admiravelmente novo!

Olhando por essa perspectiva, a informação parece toda hora migrar de mídia. Tambores, eletricidade, ondas de rádio, internet sem fio… Ela se origina em um corpo, mas não necessariamente fica atrelada a ele. Isso, em minha opinião, é fundamental saber quando lidamos com transmissão de informações: cada vez mais estamos ficando libertos de receptáculos de informação. Ainda somos as máquinas de sobrevivência regidas por genes, tal como o biólogo Richard Dawkins propõe em seu livro O Gene Egoísta (1976), mas até mesmo isso estamos sendo capazes de modificar. Muito em breve deixaremos de ser humanos e passaremos a ser “algo além de humano”, seremos pós-humanos. Estamos perdendo nossos corpos como os conhecemos. E, consequentemente, nossas informações estão sendo remodeladas.

O corpo é diferente da corporificação. Nossos corpos são normativos, são uma organização estruturada: tenho rins, coração, fígado, olhos, cérebro etc. Para eu continuar a viver, terei de ter esses órgãos, mesmo que sejam artificiais. Por uma pessoa ter recebido um implante de um coração artificial você passa a enxergá-la como máquina? Acredito que não… Semelhantemente, se amanhã ou depois descobrirem que os computadores ganham um poder de processamento nunca antes imaginável caso recebam enxertos de pele humana dentro de seus circuitos integrados, eles seriam humanos perante seus olhos? Também acredito que não…

 

A corporificação, por sua vez, é contextual. Quando o Doctor Who viaja com sua TARDIS para a Roma Antiga, ele não deixa de ser um alienígena do planeta Gallifrey, apenas corporifica a figura de um homem romano para poder interagir com o ambiente ao seu redor. Do mesmo modo, quando criamos um avatar em um mundo digital, ele é uma corporificação nossa, não o nosso corpo biológico de fato (isso fica bem claro no filme Avatar de 2009, dirigido por James Cameron).

A informação está descorporificada. Nós, humanos, continuamos a ter nossos corpos: com acréscimos de próteses artificiais ou não. Os seres humanos não perderam seu corpo. A informação, com o decorrer dos anos de estudos cibernéticos, deixou de ser corporificada, ou seja, presa a seu invólucro original, mas continua a ser informação (aquilo que dá forma ao que está na mente): o que acontece hoje em dia, simplesmente, é que essa informação – seja ela qual for – pode migrar de um lugar para outro. Isso é muito bem explorado no primeiro volume da série de livros Carbono Alterado, de Richard K. Morgan (e recentemente adaptado pela Netflix). Na história que se passa no futuro, toda a consciência humana é carregada em cartuchos implantados na base do cérebro de um corpo artificial denominado “capa”. Com os cartuchos, a humanidade praticamente se torna imortal (a não ser que o cartucho seja destruído, claro), fazendo com que, de tempos em tempos, as pessoas migrem de uma capa para outra. Há mudança de corpo, mas não há perda de informação. Recomendo o vídeo abaixo:

 

E justamente nessa migração de informação é que começa a existir uma diferença entre os humanos que éramos e os humanos que somos atualmente. O humanismo liberal do Iluminismo, aquele em que o sujeito existe como um ser natural (dono de si mesmo e completamente livre), como nos mostrou a evolução dos estudos cibernéticos, deixou de existir. Hoje não somos mais seres naturais, humanos puros (numa concepção liberal): a nossa inteligência é coproduzida com as máquinas inteligentes – é um processo simbiótico. Nós, agora, somos vistos como máquinas de processamento de informações semelhantes a outros tipos de máquinas de processamento de informações. Máquinas se sobrevivência orgânicas (segundo Dawkins) e máquinas artificiais ficaram dependentes. Deixamos de ser humanos. Tornamo-nos pós-humanos.

 

Calma!

Ser pós-humano não é motivo para que se jogue da varanda de seu prédio. Do mesmo modo, não lhe dá poderes mutantes como alguns X-Men. Você pode ficar tranquilo, as mudanças são sutis e graduais. Caso não tenha viajado com a TARDIS para outro planeta nas últimas duas décadas, tenho certeza de que já fez alguma pesquisa no Google, ou já baixou algum filme pirata, ou já recorreu à Wikipédia para sanar alguma dúvida. Não há vergonha alguma em admitir isso: você aprendeu com o seu computador. Entre os bilhões – ou mais – de bits armazenados nas nuvens espalhadas pelo mundo, você já obteve informação de alguns deles. Sua inteligência aumentou graças ao mundo digital dos computadores. E os computadores também aprenderam com você: não é surpreendente quando entramos na loja virtual da Amazon ou na Netflix e ali haja sugestões de produtos/filmes que realmente se encaixam em nossos perfis? Pois é, isso representa um acréscimo na inteligência das máquinas artificiais. Sejamos honestos: nós nos tornamos mais inteligentes conforme interagimos, seja com outros seres humanos, seja com outros animais, seja com o meio-ambiente, seja com nossas ferramentas, seja com computadores e outras máquinas artificiais. O sistema ecológico que habitamos não é mais apenas “natural”, é artificial também. Com o avanço da tecnologia e das próteses artificiais, provavelmente deixaremos de ser Homo Sapiens Sapiens e ganharemos outra nomenclatura, a de Homo Sapiens Silex.

Os estudos sobre pós-humanismo têm sido encabeçados por grandes autoridades nos campos da filosofia, engenharia, biotecnologia e ciência da computação. Dentre eles, o futurólogo Max More é um dos principais especialistas na área, tendo colaborado na redação da Declaração Transhumanista (Transhumanist Declaration) de 1998, a qual transcrevo abaixo:

1. A Humanidade será profundamente afetada pela ciência e tecnologia no futuro. Nós almejamos a possibilidade de alargamento do potencial humano ao superar o envelhecimento, as deficiências cognitivas, o sofrimento involuntário, e o nosso confinamento ao planeta Terra.

2. Acreditamos que o potencial humano ainda não foi realizado em sua maior parte. Há possíveis cenários que levariam a maravilhosas e extremamente valiosas melhorias nas condições humanas.

3. Reconhecemos que a humanidade encara sérios riscos, especialmente do mau uso de novas tecnologias. Há possíveis cenários realísticos que levariam à perda da maioria, se não todas, das coisas que valorizamos. Alguns desses cenários são drásticos; outros, sutis. Embora todo progresso seja mudança, nem toda mudança é progresso.

4. É necessário investir esforços de pesquisas no entendimento desses prospectos. Precisamos cuidadosamente deliberar qual o melhor meio de reduzir riscos e agilizar aplicações benéficas. Também precisamos de fóruns nos quais as pessoas possam construtivamente discutir o que pode ser feito e uma ordem social em que as decisões responsáveis possam ser implementadas.

5. Redução dos riscos da extinção humana, desenvolvimento de meios para a preservação da vida e da saúde, o alívio de sofrimentos graves e o aperfeiçoamento da precaução e sabedoria devem ser buscados como prioridades urgentes e generosamente financiados.

6. Decisões políticas devem ser guiadas por visão moral responsável e inclusiva, pesando seriamente as oportunidades e os riscos, respeitando a autonomia e os direitos individuais, e demonstrando solidariedade e preocupação com os interesses e dignidade de todas as pessoas ao redor do globo. Também devemos considerar nossas responsabilidades morais para com as gerações que existirão no futuro.

7. Nós defendemos o bem-estar de toda senciência, incluindo humanos, animais não-humanos, qualquer intelecto artificial futuro, formas de vida modificadas, ou outras inteligências às quais o avanço tecnológico e científico possa trazer.

8. Favorecemos liberdade morfológica – o direito de modificar e aperfeiçoar o corpo, a cognição e as emoções. Essa liberdade inclui o direito de usar ou não técnicas e tecnologias para estender a vida, preservar o ser por meio de criogenia, upload, e outros meios, e a escolher futuras modificações e aperfeiçoamentos.

Max More e Natasha Vita-More editaram o livro The Transhumanist Reader (2013), que, trazendo uma coletânea de ensaios de diversos autores expoentes, se tornou referência absoluta para aqueles que desejam se aprofundar na temática. Rapidamente, apresentarei alguns apontamentos interessantes dessa obra. O intuito, claro, não é esgotar o tema, até mesmo porque isso é impossível em qualquer área cognitiva: vou apenas pinçar aquilo que me auxiliará a dialogar a Arqueologia com a Realidade Virtual na próxima aula.

Falar de Pós-Humanismo é falar de Transhumanismo, e vice-versa. Alguns pesquisadores alegam que o transhumanismo é a ponte que faz a ligação entre o humanismo e o pós-humanismo. Outros, dizem que o transhumanismo é a filosofia que está presente na figura do pós-humano. Para fins de compreensão, aqui vou abordar o transhumanismo como a discussão por trás da questão tecnológica que nos permite sermos pós-humanos. Desse modo, para mim, o transhumanismo é, ao mesmo tempo, uma filosofia e um meio de se chegar ao pós-humanismo (entendendo-se por “meio” os aparatos tecnológicos que pensem, no nível mais fundamental, em um sistema binário).

 

O transhumanismo pode, sim, ser descrito como uma espécie de filosofia de vida não-religiosa que rejeita a fé, a veneração e o sobrenatural, enfatizando a vida sendo formada por razão, ciência, progresso e o valor da existência. Pessoalmente, tenho ressalvas com o termo “progresso”, pois ele facilmente pode ser mesclado com “evolução” e, assim, erroneamente, abrir precedentes para eugenias e outras “teorias” de pureza. Porém, o transhumanismo tem o progresso como uma de suas pedras angulares e, tal como afirma Max More, suas raízes estão no Iluminismo, concebendo a ideia como uma possibilidade e desejo, não uma inevitabilidade. Assim, o progresso segundo os transhumanistas se opõe à fé, uma vez que nós devemos criar melhores futuros – com base na razão, tecnologia, método científico e criatividade humana – ao invés de esperarmos ou rezarmos para forças sobrenaturais.

Uma grande diferença entre humanismo e transhumanismo está na ênfase que o último dá aos meios e fins. Enquanto o humanismo tende a depender exclusivamente do refinamento educacional e cultural para melhorar o ser humano, o transhumanismo emprega a tecnologia para superar os limites impostos por nossas heranças biológicas e genéticas. Para os transhumanistas, a natureza humana não se fecha em si mesma nem é vista como perfeita: ela apenas é um ponto na trilha evolucionária e nós podemos aprender a remodelar nossa própria natureza de modos que consideremos desejáveis e valiosos. “Ao ponderada, cuidadosa e ousadamente aplicarmos tecnologia a nós mesmos, podemos nos tornar alguma coisa não mais precisamente descrita como humano: podemos nos tornar pós-humanos” (MORE & VITA-MORE 2013: 4). A definição de Max More sobre o ser pós-humano é emblemática e merece ser citada por inteiro (2013: 4):

“Tornar-se pós-humano significa exceder as limitações que definem os aspectos menos desejáveis da ‘condição humana’. Seres pós-humanos não deverão mais sofrer com doenças, envelhecimento e morte inevitável (…). Eles poderão ter grandes capacidades físicas e liberdade de forma – geralmente referida como ‘liberdade morfológica’ (…). Pós-humanos deverão também ter grandes capacidades cognitivas, e emoções mais refinadas (mais alegria, menos raiva, ou quaisquer mudanças que cada indivíduo desejar). Transhumanistas tipicamente tentam expandir a gama de possíveis ambientes futuros para a vida pós-humana, incluindo a colonização do espaço e a criação de ricos mundos virtuais. Quando os transhumanistas se referem à ‘tecnologia’ como o meio primário de mudanças efetivas na condição humana, isso deve ser entendido de modo amplo a fim de incluir a concepção de organizações, economias, políticas e o uso de métodos e ferramentas psicológicas”.

Outro ponto marcante do transhumanismo é aquilo que Max More denomina racionalismo crítico. Baseado na obra do filósofo da ciência austríaco naturalizado britânico Karl Popper, o racionalismo crítico difere radicalmente das ideias do Iluminismo. Muitos pensadores iluministas defendiam o fundacionalismo, dizendo que as teorias epistemológicas deveriam ser calcadas em crenças básicas ou fundamentos para a elaboração do conhecimento. O racionalismo crítico, por sua vez, rejeita essa justificativa centrada em uma autoridade (podendo ser Deus) para afirmar que não existem fundamentos para o conhecimento: adquirir ou aperfeiçoar o que sabemos é baseado essencialmente em conjunturas e críticas.

Do mesmo modo, a questão da identidade para os transhumanistas acaba sendo importantíssima. A maioria dos pesquisadores descrevem a si mesmos como materialistas, fisicalistas ou funcionalistas: acreditam que nossos pensamentos e sentimentos (ou sensações) são essencialmente processos físicos. Assim, os transhumanistas são funcionalistas, ou seja, propalam que o “eu” tem de ser instanciado em algum tipo de meio físico, mas não necessariamente humano (ou biológico). Por exemplo, se os neurônios biológicos de alguém forem sendo, gradualmente, substituídos por neurônios artificiais que funcionem cognitivamente do mesmo jeito, a mesma mente e personalidade irá persistir apesar de estar em um substrato não-biológico (MORE & VITA-MORE 2013: 7). O funcionalismo, assim, é uma forma de fisicalismo que difere da teoria da identidade (um estado mental é idêntico a um estado específico do cérebro) e do behaviorismo (termos mentais podem ser reduzidos a descrições comportamentais): os estados mentais são relações causais com outros estados mentais, sensores de entrada e saídas comportamentais. “Por estarem os estados mentais constituídos por seu papel funcional, eles podem ser lançados em múltiplos níveis e manifestarem-se em muitos sistemas, incluindo os não-biológicos, desde que o sistema apresente as funções apropriadas” (MORE & VITA-MORE 2013: 7).

Por fim, devo ressaltar que um dos aspectos do transhumanismo (ou pós-humanismo) que mais interessa a este trabalho que está lendo é a simulação, sendo ela desenvolvida em ambientes virtuais. Em outras palavras, o transhumanismo também trabalha com a Realidade Virtual. Veremos como isso se desenrola ao abordarmos a Ciberarqueologia em nossa próxima aula. Termino aqui com a sugestão desse excelente debate:

 

 


Leitura recomendada

› MORE, Max & VITA-MORE, Natasha (eds.). The transhumanist reader: classical and contemporary essays on the science, technology, and philosophy of the human future. West Sussex: John Wiley & Sons, 2013.

O capítulo 1 oferece um panorama do transhumanismo. É excelente.

 

› HAYLES, N. Katherine. How we became posthuman. Virtual bodies in cybernetics, literature, and informatics. Chicago: The University of Chicago Press, 1999.

A obra de Hayles traça a trajetória da Cibernética e, ainda por cima, aprofunda os temos do pós-humanismo. É um livro obrigatório! Deixo aqui a conclusão do livro.

 


Jogo recomendado

Dex (2015) é um jogo ótimo. Para quem gosta de cyberpunk e questões ligadas ao pós-humanismo, é um prato cheio!

Clique aqui para baixar: Download.

 


Filme recomendado

Obviamente, a sugestão é a série Altered Carbon (2018) da Netflix.

 


Powerpoint da aula

Aposto que a aula foi tão boa que até se esqueceu de fazer anotações, não é mesmo? Sem problemas!

Clique aqui para baixar o PPT: Download da aula.

 

 

 

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